Manual de política para crentes

Reverendo Z. entra em terreno perigoso

Ricardo Muniz | 23/04/2007


A 5.ª mensagem é introdução teórica a temas espinhosos, mas necessários, do 6.º sermão.


Mais avacalhado do que igreja, só a política. Mas diferente das igrejas, a política continua relevante.


Por isso não se deve dispensar, desmobilizados irmãos de minha congregação invisível, que se compreenda a política, sem se tornar, contudo, ingênua massa de manobra das mais variadas facções. Sem, acima de tudo, ser tocado como gado pelas eloqüentes páginas de jornal ou revista, pelas emocionalmente carregadas imagens da TV, pelos sermões de mercadores sem escrúpulos e mafiosos sem temor. Com todas as cautelas, é preciso tomar partido.


Em política é raro que o idealismo mova as peças. O que impulsiona a política são interesses. Um interesse coletivo, amplo, é o mais próximo que teremos de um "ideal", mas até ele é condicionado pelas regras do jogo, envolto por poeira e vento da conjuntura histórica.


O alvo da política é o poder. Conquistá-lo e mantê-lo, melhorando o mundo, estagnando-o ou destruindo-o, tanto faz.


Também não existe "o interesse público" – exceto em caso de guerras, cataclismos e comoções, que no final das contas acabam sendo úteis para forjar nações e unir povos –, mas milhares de interesses que podem ser mais ou menos coletivos e amplos. Há projetos inteiros estruturados em torno da vaidade de uma só pessoa, da preguiça de trabalhar duro de um pilantra, do ímpeto negocista de um oportunista. Muitos e tantos buscam qualquer causa que lhes proporcione ingresso aos palácios. Com elas não mantêm qualquer relação de coerência, como veremos a seguir.


Outros são movidos pelas necessidades e planos de expansão de setores econômicos, de corporações profissionais. Ou de quadrilhas em busca de proteção para seus empreendimentos (veja que não deixa de ser um interesse coletivo), de igrejas com cacife para jogar o jogo, interessadas sobretudo em canais de TV e emissoras de rádio, em não pagar imposto, em acobertar desvios e amenizar o escândalo que é achacar pobres com um discurso que é bizarra falsificação das Escrituras.


Nestes tempos testemunhamos grupos que exerceram por décadas o poder (e que agora penam na oposição, impacientes) assumirem a bandeira da ética, na falta de propostas programáticas, pois sua bandeira era conservar tudo do jeito que estava. Nunca tiveram preocupação ética nenhuma, porque partilha de cargos e caixa 2 são suas especialidades, e por isso foi tão difícil tirá-los do poder. Os grupos que fizeram oposição por muito tempo, agora governantes, lutam para mantê-lo seguindo o receituário tradicional, já testado, ainda que isso desmoralize o discurso anterior de faxina ética das instituições públicas. "Moral" da história: reivindicações éticas, feitas por políticos, são peças de propaganda. Poderiam ser feitas pelas igrejas, mas elas não têm mais autoridade para isso. Não vos enganeis, tornando-vos fantoches da mais barata hipocrisia.


Ser oposição não é agradável – outra lição importante, especialmente para os jovens. É tolice idealizar essa luta como algo heróico a priori. A meta da oposição é trocar de lugar com a situação. Oposicionista não lunático quer um dia ter o que conservar, quer um dia olhar para trás e perceber que esta ou aquela política pública que construiu tornou-se digna de defesa, de ser conservada. Quer, sobretudo, adiar ao máximo o retorno à dura vida da oposição. O mais aguerrido revolucionário é o mais aferrado defensor do status quo, em caso de vitória da revolução. Não existe revolução permanente tocada pelos mesmos agentes.


Compreendida a regra-chave do grande jogo, há sim interesses que se pode defender sem ter vergonha dos netos. Quem paga as contas com salário encontrará princípios bíblicos abundantes que legitimam seus anseios, como "Digno é o trabalhador do seu salário" (Lucas 10:7) ou "Não atarás a boca ao boi que debulha" (Dt. 25:4). Outros interesses, por sua vez, deveriam constranger os bons cristãos. Quem acumula riquezas, por exemplo, também lerá nas mesmas Escrituras: "Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores no meio da terra" (Isaías 5:8).


Muitos cidadãos com boas idéias e capacidade acima da média para executá-las lamentam a qualidade das instituições, mas não se dispõem a integrá-las. Como, aliás, muitos crentes oram pelas missões, mas torcem para que seu filho não seja louco o suficiente para se tornar missionário. Assim como, digo mais, tantas igrejas destinam mais recursos ao carpete novo do que a projetos longínquos e de longo prazo de disseminação do Evangelho, a despeito de anuais celebrações missionárias. É uma questão de orçamento contradizendo o discurso, na ponta do lápis.


O que, no final das contas, é o grande teste: contrastar o programa, quando existe programa, com a importância que esta ou aquela política usufrui no Orçamento.


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