Vendam as igrejas, exorta o reverendo Z.

Preocupado com a potencial abstração de suas mensagens, ele decide assustar sua congregação propondo medidas radicais

Ricardo Muniz | 18/04/2007


O 4.º sermão é uma proposta, para não ficarmos só no domínio do palavreado, ainda que seja para alguns palavreado útil. Gostaria de sugerir que todas as igrejas vendam seus templos e doem a soma arrecadada para projetos de educação. A denominação que se recusar a vender, que converta seus templos em escolas e estruture projetos laicos de educação popular. Disse o Senhor, quando questionado sobre o lugar onde se deveria adorar a Deus: "os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade", ou seja, nem no monte dos samaritanos, nem em Jerusalém (João, 4:19-24). Nem na igrejinha da periferia nem nas catedrais, nem em lugar específico nenhum, deduzo eu. Lugar, cenografia, território, arquitetura, adereços, nada disso importa. Ora, ora, ora, então qual a utilidade desses edifícios, se é possível se reunir em grupos menores e mais aconchegantes nas casas dos crentes mesmo?

Seguindo sábio conselho do ex-missionário D., não fiz seminário. Dizia ele que era melhor ter uma profissão dita secular do que virar um religioso profissional. Pois bem, certíssimo estava meu amigo D., pelo simples bom senso e porque há abundantes e influentes exemplos nas próprias Escrituras: Jesus era carpinteiro, Paulo fazia tendas, Pedro era pescador, Lucas, médico. Quero dizer com isso que as igrejas, além de vender seus prédios, deveriam abolir a formação estritamente teológica, e nunca jamais alçar à condição de ministro do Evangelho um cidadão ou cidadã que não domine e exerça outro ofício.

Outro tema que me ocorre é: por que raios  igreja não paga imposto até hoje? Sei que há razões históricas para a isenção, mas desconfio que faz tempo que estamos em outro momento, bem distinto. Virou uma bandalheira tão grande se associar em nome de qualquer credo que o cristão sério tinha de ser o primeiro a defender que as igrejas não sejam mais imunes de impostos sobre doações, dízimos e ofertas. Se os trabalhadores pagam imposto de renda, por que as congregações não deveriam segui-los, até para se identificar melhor com eles, se é que isso ainda lhes interessa?


Então, a proposta é: vendam os templos, não empreguem religiosos profissionais e, se acharem importante estruturar uma instituição religiosa em cartório (eu não recomendo), paguem todos os impostos possíveis e imagináveis (se acharem que é imposto demais, protestem). Igreja pagando imposto e dando aula poderia, quem sabe, participar mais da vida real de um país que precisa fortalecer e tornar mais eficiente o Estado, que precisa disseminar e melhorar a educação.


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