Um pastor ao lado de Hugo Chávez

Publicado originalmente no site Teologia Brasileira

Ricardo Muniz | 28/07/2004


Entre 17 e 19 de julho de 2004 um pequeno grupo de brasileiros foi recebido pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e lhe entregou um manifesto de apoio à sua gestão e a favor de sua permanência no cargo até o final do mandato. No pequeno grupo estava o escritor Fernando Morais, autor de Olga e Chatô, o Rei do Brasil, entre outras biografias. Também estava Ariovaldo Ramos, presidente do conselho da ONG cristã Visão Mundial, pastor da Comunidade Cristã Reformada (CCR) e membro da equipe pastoral da Igreja Batista da Água Branca, ambas em São Paulo.

Uma visão impulsionou Ramos ao gesto, naturalmente alvo de receios velados e críticas abertas no meio evangélico brasileiro: "Onde tiver um cara andando nos caminhos de Jesus, mesmo que não confesse Jesus como eu confesso, o que eu puder fazer para ajudá-lo, eu vou fazer".


Partindo da constatação de que não há uma Teologia Política elaborada ou sequer discutida pela Igreja evangélica no Brasil, Ramos afasta as objeções apontando para a falta de prática do evangelho: "Chávez trouxe 10 mil médicos de Cuba, que moram nas favelas e cuidam de seus moradores. Aí as pessoas dizem: é, mas ele trouxe médicos de Cuba... Sim, mas de que outra nação ia trazer? Quem mais no mundo está disposto a esse nível de sacrifício? Deviam ser os americanos, que se dizem crentes, protestantes. Deviam ser os ingleses, os alemães, os escandinavos, tudo crente, tudo protestante, tudo gente boa. Vão os cubanos porque os cristãos não vão. Vão os cubanos porque os caras que têm a Bíblia na mão não fazem isso, os caras com Bíblia na mão querem ficar ricos".


Na entrevista abaixo, concedida domingo 25 de julho de 2004 depois do culto na CCR, Ramos afirma que uma das bases bíblicas da reforma agrária é o texto de Isaías 5.8 e que Gênesis 1 traz um modelo de administração do planeta. "A beleza do jardim é uma beleza comunitária, do conjunto. Não é pra ter uma exposição de vasos enormes com um espécime ali só pra se autopromover."


Você acha que falta uma teologia política na Igreja Brasileira? Qual a base de fé que te leva a uma atitude dessas de mostrar a cara, assinar um manifesto, ir até a Venezuela e entregar na mão do Hugo Chávez?


Eu acho que falta. A gente reduziu o Evangelho a uma questão de salvação pessoal, que não tem nenhuma implicação com o próximo, fica só um relacionamento particular entre o camarada e Deus. Um relacionamento que foi involuindo. No começo a pessoa ainda se convertia e virava servo de Deus, e aí era um negócio intimista, pessoal, mas ele queria ser santo, queria fazer a vontade de Deus, reconhecia que era filho, que tinha sido perdoado por seus pecados. E isso gerou um bocado de santo na história da Igreja. Mas aí a coisa involuiu. Continua sendo particular, pessoal, só que ao invés de ser servo de Deus, Deus que é servo dele. E aí, quer ser abençoado, vem à reunião para buscar sua bênção. O santo do passado não incluía o próximo na sua salvação, mas por querer ser servo de Deus, acabava amando o próximo. Esse agora nem inclui e nem ama, entendeu? Então, está faltando sim, nós não temos Teologia Política. A gente não tem a menor idéia de que o Evangelho é a recuperação do conceito de humanidade, e muito menos qual é o conceito de humanidade nas Escrituras.


E a minha base de fé é essa, que o Evangelho é a recuperação do conceito de humanidade, de homem coletivo, todos se responsabilizando por todos, que a vida, o planeta, são dons para a humanidade, e não para determinados indivíduos, e que qualquer movimento na História que segregue seres humanos é um movimento contra Deus. Para mim nosso papel é corrigir isso. Passa pela questão econômica, logo de cara. Passa pelo ataque à pobreza, pela recuperação da dignidade do ser humano, pela questão racial – nós temos de aprender a ver a humanidade como uma única raça, a raça humana, não tem outra raça –, e pela recuperação da comunhão com o ser humano, porque ele é ser humano, não porque ele concorda comigo. Então essa é minha base de fé. Acho que é necessário que a gente apóie todos os movimentos que tentam corrigir essa anomalia, que é homens explorando homens e homens se tornando superiores a outros homens.


Como é que você encara por exemplo um cristão muito comprometido com a sua igreja na Venezuela, mas que seja frontalmente oposição ao Hugo Chavez? Outro exemplo, no Brasil: um cristão comprometido que é radicalmente contra o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra) e vota em candidatos da elite com graves suspeitas de corrupção. Ou é contra as cotas para estudantes negros nas Universidades. Nessas questões pontuais, como é que você explica?


Acho que se explica justamente por esse evangelho que não considera o outro, um evangelho muito pessoal, muito particular, Deus e eu, eu e Deus, e o outro não é chamado. Isso em primeiro lugar. Em segundo lugar, é claro que o camarada tem direito de pensar diferente de mim, ele pode ser contra a reforma agrária, ser contra as cotas e isso é um direito dele. Agora, como cristão, até onde eu entendo o Cristianismo, essa pessoa vai ter dificuldades para se expilcar. Eu não tiro dele o direito de pensar diferente, mas se nós nos sentarmos pra conversar de cristão pra cristão, considerando o que Jesus Cristo ensinou, viveu, fez, eu acho que ele vai ter dificuldade de se explicar. É muito difícil um cristão explicar porque que é contra redistribuição das terras quando Isaías 5.8 diz: "Ai dos que ajuntam casa sobre casa e terra sobre terra até serem os únicos moradores do lugar".


Acho difícil um cristão que vota em um camarada declaradamente tido como corrupto quando as Escrituras dizem que a justiça tem de correr como um rio perene, que é abominação para Deus quando os príncipes subvertem o direito. É difícil entender um cristão que não queira a indenização aos que foram escravizados e que foram abandonados e marginalizados na História quando as Escrituras nos ensinam que devemos privilegiar os despossuídos, os que estavam nus, com fome, sede, os enfermos, os encarcerados, que devemos socorrer os aviltados, que devemos levantar os joelhos cansados, que devemos ser a voz dos oprimidos.


Eu acho que como cristão ele vai ter uma dificuldade para explicar isso. Como cidadão, é um direito dele, lógico. Eu vou respeitar o tempo todo, óbvio. Mas quando eu sentar com ele de irmão para irmão, eu vou perguntar "escuta, justifica isso como seguidor de Jesus, como filho de Deus, justifica pra mim esse apego à propriedade, justifica pra mim esse apego à riqueza, justifica pra mim esse apego a um sistema que é marcadamente sustentado pela exploração". Não sei, gostaria de ouvir, quem sabe uma hora que eu sente com algum desses irmãos queridos e ele me ensine coisas que eu não estou conseguindo ver. Mas pra mim é difícil.


Faça um breve relato dessa viagem. Como surgiu esse manifesto, e o que você viu lá?


O que me levou a assinar o manifesto foi, primeiro, que o Hugo Chávez é um camarada democraticamente eleito. Ele foi deposto pela oligarquias e foi reconduzido ao poder pelo povo. Depois, tendo ido lá eu pude assistir in loco que ele realmente está fazendo uma revolução social. Ele está trabalhando pela erradicação da pobreza mesmo, construindo escolas, trouxe 10 mil médicos de Cuba que moram nas favelas e cuidam das pessoas que moram ali. Aí as pessoas dizem "é, mas ele trouxe médicos de Cuba e tal". Sim, mas de que outra nação ele ia trazer? Quem mais no mundo está disposto a esse nível de sacrifício? Deviam ser os americanos, que se dizem crentes, protestantes. Deviam ser os ingleses, que se dizem protestantes, deviam ser os alemães, que se dizem luteranos. Deviam ser os escandinavos, que são luteranos, que é tudo crente, tudo protestante, tudo gente boa. Mas parece que Jesus Cristo está enfrentando a mesma situação que enfrentou quando foi fazer a Ceia e teve de pedir para um grupo que não era seu discípulo. Quando foi entrar em Jerusalém e mandou seus discípulos buscarem o jumentinho num grupo que também não era seu discípulo, que os discípulos não conheciam. Então parece que Jesus tem gente que O segue e os Seus discípulos não conhecem. Aí os caras falam assim "é, mas justo os cubanos?". É, os cubanos porque os cristãos não vão, né? Os cubanos porque os caras que têm a Bíblia na mão não fazem isso, os caras com Bíblia na mão querem ficar ricos. Então tem de ir essa gente. Que pena que essa gente não está no nosso meio.


Chávez pegou o dinheiro do petróleo e dividiu em centros de custo, uma parte vai para a agroindústria, outra para educação, outra para infra-estrutura, outra para saúde. Vai mexer na questão da terra? Certamente. As pessoas dizem "você não pode fazer isso, por causa do direito de propriedade". Mas a Bíblia já disse "ai dos que ajuntam casa sobre casa e terra sobre terra até serem os únicos moradores do lugar". Então, que isso significa? Que tem limite. Eu não posso ter tudo que eu quero. Eu só posso ter aquilo que não imponha ao próximo ter de viver embaixo da ponte, ter de viver nos morros, em casas de papelão e de madeira, que quando chover serão soterradas e ele vai morrer. Então tem limite, tem de ter limite.


O Senhor quando disse pra gente dominar o planeta, ele botou a gente num jardim. Quando fez isso, deu um modelo. Um jardim é a capacidade de administrar todos os recursos para o bem de todos. A beleza do jardim é uma beleza comunitária. Todos os nutrientes são repartidos. Você tem a beleza do conjunto. Não é pra ter uma exposição de vasos enormes com um espécime ali só pra se autopromover. Não foi esse o modelo que Deus deu. O Senhor Jesus Cristo repartiu o pão, fez as pessoas se assentarem em comunidades pequenas, abriu espaço para o pão chegar para todos, ensinou que só o caminho da cooperação e da solidariedade alimenta todo mundo. Ele deu o tom para nós, disse o que tínhamos de construir. Onde tiver um cara andando nos caminhos de Jesus, mesmo que não confesse Jesus como eu confesso, o que eu puder fazer para ajudá-lo, eu vou ajudar.


A outra coisa que eu ouvi, segundo o pastor com quem conversei, é que 80% da Igreja evangélica na Venezuela está com Hugo Chávez. Perguntei ao pastor o motivo. Ele disse: "porque a Igreja evangélica é pobre, e os pobres estão com o Chávez". Perguntei pra ele o que era a Venezuela antes do Chávez e ele disse: "era uma grande fazenda dominada por 30 famílias". Perguntei como era essa coisa do dinheiro, porque afinal de contas a Venezuela tem 80 bilhões de barris de petróleo de reserva, então um país que tem tanto petróleo não pode ter pobreza. Aí ele disse: "entrou aqui na Venezuela nos últimos 25 anos o equivalente a 12 planos Marshall [ajuda americana para reconstruir a Europa depois da 2ª Guerra Mundial], mas 70% da nossa população está na pobreza total". Como não apoiar um sujeito que diz "vamos mudar isso"?. Vamos mudar isso, pelo amor de Deus! Não quer dizer que não vai haver ricos, mas quer dizer que não vai haver gente na miséria. Não vai haver gente morrendo e matando pra sobreviver.

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