Caio Fábio foi pressionado pelo PT no caso Dossiê Cayman

Ricardo Muniz | 22/09/2006


Não é de hoje que membros do Partido dos Trabalhadores buscam avidamente informações pessoais comprometedoras para desqualificar quem lhe é incômodo politicamente. Não é de hoje que o PT se dá mal nessas tentativas. Pelo relato do ex-pastor evangélico Caio Fábio D’Araújo Filho, assim foi na campanha presidencial de 1998. Naquela vez, o partido conseguiu tirar a tempo o corpo da linha de tiro. Quem se deu mal mesmo foi ele. Caio Fábio, suposto intermediador do caso Dossiê Cayman, detesta imaginar que seu nome estará associado para sempre ao escândalo de falsificação. “Não agüento mais ter vivido 27 anos por uma causa, e, por um episódio, ter minha existência estigmatizada.”

O reverendo alcançou na década de 1990 um status inédito: foi um líder evangélico respeitado em todo País. Com a Fábrica de Esperança, um ambicioso projeto social em Acari, no Rio, Caio Fábio foi incensado pela mídia e acostumou-se a receber visitas ilustres. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, apareceu lá em janeiro de 1995, no início do primeiro mandato na Presidência da República.

Mas todo prestígio se desmanchou no ar quando, durante a campanha presidencial de 1998, Caio Fábio foi acusado de intermediar o chamado Dossiê Cayman, uma papelada que comprovaria que FHC, José Serra, Sérgio Motta e Mário Covas mantinham centenas de milhões de dólares em um paraíso fiscal no Caribe. Investigações posteriores apontaram os documentos como pura armação.

Processado por calúnia pelo então presidente, o pastor só se viu livre das acusações no ano passado – inocentado pelo depoimento de Eduardo Jorge, ex-secretário de FHC. Aos 51 anos, casado pela segunda vez, rompido com o meio evangélico e líder de um grupo cristão alternativo com 3 mil membros em Brasília, Caio Fábio está recomeçando. “Minha reclusão passou da hora de acabar. Quem quiser vir pro pau que venha. Mas nada quero com temas políticos, só quero propagar a fé bíblica.”

“Em 1998 eu fui deixado com uma mão na frente outra atrás, nessa história do Dossiê Cayman, por um PT que posou de ético. E é tudo mentira. O pessoal do PT é que ficou atrás de mim”, explica. Caio Fábio conta que sabia do dossiê desde 1997, mas manteve absoluto silêncio por razões de ética profissional. “Não contei nem pra mãe dos meus filhos. Eu vivo de ouvir histórias há anos. Se eu começar a abrir a boca, milhares de casamentos acabam na mesma hora, um monte de líder evangélico cai dos seus troninhos e um monte de político se arrebenta.”

O pastor tornou-se amigo de Lula no papel de consultor sobre o meio evangélico. “Tive um relacionamento de uns dez anos com o Lula, de conversas freqüentes e longas. Tudo começou pouco depois da derrota para Collor, com a Igreja Universal colocando ele de chifre, rabo e tridente na mão”, conta.

Segundo Caio Fábio, em meados de 98 Lula veio fazer uma visita à Fábrica de Esperança com Leonel Brizola (vice de Lula na campanha de 98), Anthony Garotinho (à época membro do PDT), Benedita da Silva e outros. “Naquele dia apareceu lá um cara que Lula conhecia há muito mais tempo do que eu e que tinha sido a pessoa que me contou a história de Cayman na Flórida. Eles se abraçaram como velhos amigos. Esse indivíduo me abordou na minha ante-sala e me disse o seguinte: ‘Reverendo, eu não disse pro senhor que é todo mundo igual? Contei aquela história pro Lula e ele está louco atrás daquilo’. Depois o próprio Lula me abordou: ‘Como você não me conta uma coisa dessas?’”

A partir daquele momento, líderes do PT passaram a pressioná-lo para que participasse da divulgação do dossiê, por conta de sua influência e credibilidade na sociedade civil. “Havia ligações, meia-noite, todo dia, às vezes a Bené (Benedita da Silva) estava chorando: ‘Meu reverendo, pelo amor de Deus salva a gente. Sem essa história o Lulinha não vai ganhar. Nós jamais vamos conseguir. Não deixa a gente nessa, pelo amor de Deus.’ Deus é minha testemunha, e as contas telefônicas também, de quem ligava pra quem. Até mesmo o José Dirceu veio ao Rio conversar comigo. A covardia foi tão grande que à medida que o tempo foi passando, e ficou patente que a papelada era uma grande operação de falsificação, eles foram transferindo tudo para as minhas costas. De repente, o Dossiê Cayman era uma coisa do Caio.”

O pastor diz, porém, que não guarda mágoas e não comemora este momento em que o PT passa de estilingue para vidraça. “Não celebro todos estes escândalos. Fiquei triste, mas não aquela tristeza dos ingênuos. Não tenho surpresas porque o PT que eu fui conhecendo era capaz disso”, afirma.

Ele também não crê em castigo exemplar dos envolvidos em corrupção. “Existe no inconsciente coletivo brasileiro o seguinte: a impunidade pode até continuar desde que a mídia cumpra o papel de chicoteamento público do indivíduo numa praça, ou seja, se a mídia pegar o cara, tirar a roupa dele com meticulosidade, descer-lhe o azorrague por dias e dias sem fim, puser as vísceras dele pra fora e mostrar de que material ele é feito, a população dá o juízo como realizado, a impunidade continua, a mídia muda de pauta e a investigação pára. Na hora em que o indivíduo se torna um fantasma, um ser irrecuperável, dá-se a justiça como feita.”


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