O Projeto Folha e o processo de modernização da imprensa brasileira

Ricardo Muniz | 08/04/2003


A política de modernização da imprensa que o Projeto Folha condensava em meados dos anos 80, vista a partir de 2003, não parece nada extraordinária em si. A maior parte da polêmica levantada pelo projeto pode ser compreendida à luz das circunstâncias de sua implantação. O encarregado de levá-la a cabo, Carlos Eduardo Lins da Silva, o reconhece. Mas sem admitir, claro, que ajudou a executar um projeto com a truculência típica dos inseguros e cultivou com o jovem patrão um tom arrogante e irritante de formular semi-obviedades. Ocorre que mesmo essa tarefa de codificação não é de todo inútil e descartável, como veremos adiante.


Mino Carta, no posfácio de "Mil Dias" de Lins da Silva, interpreta o projeto como, acima de tudo, um mover de peças voltado ao público interno – com o intuito de fortalecer Otávio Frias Filho, "guindado à direção de redação" – e voltado ao próprio dono-filho, para quem, arrisca, "sempre faltará a certeza de que foi para o trono por mérito próprio, e não por ser filho do patrão". "O Projeto Folha (...) serviria para minorar seu tormento." Ironicamente, portanto, uma peça concebida em nome da modernidade inevitável veio resolver uma situação típica das aristocracias.


Menosprezando a teorização em torno de decisões empresariais – em nome da descoberta de que jornal é para dar lucro –, Carta registra a adesão da Editora Abril, já nos anos 60, às "técnicas gerenciais mais avançadas". Lembramos aqui a própria história do grupo, fundado em 1921 por jornalistas egressos do Estadão, que sem conhecer o Projeto Folha já nutriam a visão de abrir... um negócio. Acima de tudo, quase dez anos antes as diretrizes fundamentais da nova Folha já tinham sido lançadas pela dupla formada pelo dono-pai com Claudio Abramo. Ou seja, o projeto fez muito alarde sobre pensamentos nada originais e, pior, omitiu méritos, o que lhe custou, até, uma merecida ridicularização.


Ainda assim, há importantes reconhecimentos a fazer, e mesmo Mino Carta os faz ("a empresa Folha [atingiu] uma invejável independência econômica" etc.) e aqui não importa, no final das contas, que sejam direcionados à Folha e não ao Projeto Folha, com ou sem o honrado resgate da paternidade de Cláudio Abramo.


Sim, a necessidade da crítica, a prestação de serviço, o didatismo na exposição dos fatos, deveriam ser obviedades. Bem como a necessidade de fechamento rigoroso do jornal de acordo com o timetable das máquinas, a avaliação profissional e o controle quem-faz-o-quê (que bons grupos guerrilheiros seguem à risca). A consagração de todos esses tópicos de conduta em um manual, um projeto, uma política, ao menos dá caras a tapas e estimula uma reflexão produtiva, confirmada pela quantidade de textos sobre o assunto. Isso não é pouca coisa, no jornalismo.


A grande questão é a expansão da sociedade de mercado interno de massa (cf. cap. 3 de "O adiantado da hora") e como os jornais modernos no Brasil – seguindo o rastro dos norte-americanos – conseguirão contribuir para isso. Nessa linha, é positivo que o Projeto Folha inclua em suas considerações a lembrança, ainda que mais uma obviedade, de que a melhoria dos padrões de educação e consumo da população vai ampliar o público leitor. É negativo, ao mesmo tempo, que a cruzada do jornal contra o ego dos jornalistas inclua a precarização de suas condições de trabalho e favoreça o achatamento salarial, revelando na prática uma visão de capitalismo bem mais atrasada do que a de Henry Ford.

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